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Praticamente 150 anos separam estas duas mensagens, que vocês lerão a seguir,

e que guardam entre si uma extrema semelhança, que é o grito da razão contra o uso da guerra,

esta brutalidade da estupidez humana, e que não tem justificativa em nenhuma circunstância.

O escritor moçambicano, no elenco das atrocidades cometidas pelos americanos, esqueceu-se de citar o genocídio praticado contra os verdadeiros donos das terras norte-americanas, que são os índios.


Há 148 anos atrás, um cacique,

um índio pele-vermelha norte-americano,

escreveu o mais brilhante de todos os artigos

sobre Ecologia e de como o Homem Branco

trata a terra que deveria ser sua mãe,

sua irmã, sua amiga e que ele

a transforma na sua maior inimiga.







Estátua erigida pelo escultor americano James Wehn, em 1912, em homenagem ao grande Chefe Seattle.

Esta escultura está localizada no Parque Tilikun Place, em Seattle, capital de Washington, que recebeu este nome em homenagem ao Chefe.











Mensagem 1

Mensagem do Chefe Seattle

"O Grande Chefe em Washington manda comunicar que deseja comprar nossas terras; O Grande Chefe também nos envia palavras de amizade e de boa vontade. Reconhecemos sua gentileza, porque sabemos que ele não necessita da nossa amizade, mas levaremos em conta que se não o fizermos, o homem branco virá com armas, para tomar nossas terras.Quando o grande Chefe Seattle fala, o Grande Chefe em Washington pode confiar na sua palavra como ele pode contar com o retorno das estações, da Primavera, do Verão, do Outono e do Inverno e as palavras do Cacique são como as estrelas, elas não se desvanecem".

"C omo se pode comprar ou vender o céu, o calor da Terra? Essa idéia nos é estranha, nós não possuímos a frescura do ar ou o brilho da água, como poderíamos vendê-los então?"

"OGrande Chefe em Washington manda comunicar que deseja comprar nossas terras.Oportunamente decidiremos. Todas as partes desta terra são sagradas para o meu povo; cada uma das agulhas brilhantes do pinheiro, todas as areias das praias, toda a bruma no fundo do bosque, toda a clareira ou zumbido de inseto, são sagrados na memória e na experiência do meu povo.Nós sabemos que o Homem Branco não entende as nossas maneiras; para ele, a terra é igual em toda parte, porque ele é um estranho que chega de noite e arranca da terra tudo o que ele necessita; para ele a terra não é a sua irmã, mas sua inimiga e quando ele a conquista, ele segue adiante, ele deixa atrás sepulturas dos seus pais e não se importa; ele seqüestra a terra a seus próprios filhos; ele, o Homem Branco não se importa."

"Estão esquecidos os direitos inatos de seus filhos; sua ambição devorará a terra e deixará somente o deserto. O aspecto de vossas cidades dói na vista do Pele-Vermelha, mas talvez seja porque o Pele-Vermelha é um selvagem e não entende."

"Não há lugar tranqüilo nas cidades do Homem Branco; não há lugar para ouvir as folhas da Primavera ou o sussurro das asas dos insetos, mas talvez, eu seja selvagem e não consiga entender a barulheira, essa barulheira que só insulta os meus ouvidos; mas, o que sobra da vida se o homem não mais pode ouvir o delicioso canto do rouxinol ou as discussões noturnas das rãs em volta do lago? O índio sente a aragem do vento soprando sobre a face do açude e o próprio odor do vento soprando sobre as terras, levado pela chuva do meio-dia ou o próprio vento aromatizado pelo pinheiro; o ar é precioso para o Pele-Vermelha porque todas as coisas compartilham o mesmo suspiro, os animais, as árvores, o homem. O Homem Branco parece que não nota o ar que respira, como o homem que está morrendo, há muitos dias, ele é insensível ao aroma. Se eu decidir aceitar, farei com uma condição: o Homem Branco deverá tratar os animais desta terra como seus irmãos; eu sou selvagem e não conheço outras maneiras. Eu vi apodrecendo nas pradarias milhares de carcaças de búfalos abandonados pelo Homem Branco que os matou a tiros da janela do trem; eu sou selvagem e não posso compreender como este fumegante cavalo de ferro seja mais importante que o búfalo, que nós matamos somente para viver."

"Quando todos os animais desaparecerem, o homem morrerá da grande solidão do Espírito, porque tudo o que acontece aos animais, acontece também ao homem; todas as coisas são interligadas: tudo o que acontecer à terra, acontecerá ao filho da terra".







A mensagem que você acabou de ler é apenas um resumo livre da mensagem original e é uma das muitas versões que correm pelo mundo afora. Para aqueles que preferirem ler o texto em inglês, colocamos a seguir a versão integral que é considerada a versão original do discurso do Chefe Seattle.

Este discurso, foi na verdade, uma resposta à proposta que o Presidente Franklin Pearce enviou à nação Pele-Vermelha dos Susquamish, em 1854, para comprar suas terras.

Chief Seattle

Biography



Chief Seattle

Chief Seattle (more correctly known as Seathl) was considered to be Duwamish since his mother, Scholitza, was the daughter of a Duwamish chief and the line of descendancy passed matrilineally. His father was a Susquamish chief who lived on the Islands across Puget Sound.

As a young warrior Chief Seathl was known for his courage, daring and leadership. He gained control of six of the local tribes and continued the friendly relations with the local whites that had been established by his father. His now famous speech was believed to have been given in December 1854,and it is thought that he was in his late fifties or early sixties at the time.

There is considerable controversy over the true content of his speech.... here are the details.

AUTHENTIC TEXT OF CHIEF SEATTLE'S 1854 TREATY ORATION


Source: "Four Wagons West,"

by Roberta Frye Watt, Binsford & Mort, Portland Ore., 1934.

Originally published in the Seattle Sunday Star, Oct. 29 1887.

The text was produced by one "Dr" Smith, an early settler in Seattle, who took notes as Seattle spoke in the Suquamish dialect of central Puget sound Salish (Lushootseed), and created this text in English from those notes. Smith insisted that his version "contained none of the grace and elegance of the original" The last two sentences of the text here given have been considered for many years to have been part of the original, but are now known to have been added by an early twentieth century historian and ethnographic writer, A. C. Ballard. At the time this speech was made it was commonly believed by whites, and also by many Indians, that Native Americans would inevitably become extinct.

There are many versions and excerpts from this text, including a wholly fraudulent version mentioning buffalo and the interconnectedness of all life which was written by a Hollywood screenwriter in the late 70's and which has gained wide currency. The bogus version has been quoted by individuals as prominent and diverse as former US President Bush and Joseph Campbell.

CHIEF SEATTLE'S 1854 ORATION: AUTHENTIC TEXT

Yonder sky that has wept tears of compassion upon my people for centuries untold, and which to us appears changeless and eternal, may change. Today is fair. Tomorrow it may be overcast with clouds. My words are like the stars that never change. Whatever Seattle says, the great chief at Washington can rely upon with as much certainty as he can upon the return of the sun or the seasons. The white chief says that Big Chief at Washington sends us greetings of friendship and goodwill. This is kind of him for we know he has little need of our friendship in return. His people are many. They are like the grass that covers vast prairies. My people are few. They resemble the scattering trees of a storm-swept plain. The great, and I presume -- good, White Chief sends us word that he wishes to buy our land but is willing to allow us enough to live comfortably. This indeed appears just, even generous, for the Red Man no longer has rights that he need respect, and the offer may be wise, also, as we are no longer in need of an extensive country.

There was a time when our people covered the land as the waves of a wind-ruffled sea cover its shell-paved floor, but that time long since passed away with the greatness of tribes that are now but a mournful memory. I will not dwell on, nor mourn over, our untimely decay, nor reproach my paleface brothers with hastening it, as we too may have been somewhat to blame.

Youth is impulsive. When our young men grow angry at some real or imaginary wrong, and disfigure their faces with black paint, it denotes that their hearts are black, and that they are often cruel and relentless, and our old men and old women are unable to restrain them. Thus it has ever been. Thus it was when the white man began to push our forefathers ever westward. But let us hope that the hostilities between us may never return. We would have everything to lose and nothing to gain. Revenge by young men is considered gain, even at the cost of their own lives, but old men who stay at home in times of war, and mothers who have sons to lose, know better.

Our good father in Washington--for I presume he is now our father as well as yours, since King George has moved his boundaries further north--our great and good father, I say, sends us word that if we do as he desires he will protect us. His brave warriors will be to us a bristling wall of strength, and his wonderful ships of war will fill our harbors, so that our ancient enemies far to the northward -- the Haidas and Tsimshians -- will cease to frighten our women, children, and old men. Then in reality he will be our father and we his children. But can that ever be? Your God is not our God! Your God loves your people and hates mine! He folds his strong protecting arms lovingly about the paleface and leads him by the hand as a father leads an infant son. But, He has forsaken His Red children, if they really are His. Our God, the Great Spirit, seems also to have forsaken us. Your God makes your people wax stronger every day. Soon they will fill all the land. Our people are ebbing away like a rapidly receding tide that will never return. The white man's God cannot love our people or He would protect them. They seem to be orphans who can look nowhere for help. How then can we be brothers? How can your God become our God and renew our prosperity and awaken in us dreams of returning greatness? If we have a common Heavenly Father He must be partial, for He came to His paleface children. We never saw Him. He gave you laws but had no word for His red children whose teeming multitudes once filled this vast continent as stars fill the firmament. No; we are two distinct races with separate origins and separate destinies. There is little in common between us.

To us the ashes of our ancestors are sacred and their resting place is hallowed ground. You wander far from the graves of your ancestors and seemingly without regret. Your religion was written upon tablets of stone by the iron finger of your God so that you could not forget. The Red Man could never comprehend or remember it. Our religion is the traditions of our ancestors -- the dreams of our old men, given them in solemn hours of the night by the Great Spirit; and the visions of our sachems, and is written in the hearts of our people.

Your dead cease to love you and the land of their nativity as soon as they pass the portals of the tomb and wander away beyond the stars. They are soon forgotten and never return. Our dead never forget this beautiful world that gave them being. They still love its verdant valleys, its murmuring rivers, its magnificent mountains, sequestered vales and verdant lined lakes and bays, and ever yearn in tender fond affection over the lonely hearted living, and often return from the happy hunting ground to visit, guide, console, and comfort them.

Day and night cannot dwell together. The Red Man has ever fled the approach of the White Man, as the morning mist flees before the morning sun. However, your proposition seems fair and I think that my people will accept it and will retire to the reservation you offer them. Then we will dwell apart in peace, for the words of the Great White Chief seem to be the words of nature speaking to my people out of dense darkness.

It matters little where we pass the remnant of our days. They will not be many. The Indian's night promises to be dark. Not a single star of hope hovers above his horizon. Sad-voiced winds moan in the distance. Grim fate seems to be on the Red Man's trail, and wherever he will hear the approaching footsteps of his fell destroyer and prepare stolidly to meet his doom, as does the wounded doe that hears the approaching footsteps of the hunter.

A few more moons, a few more winters, and not one of the descendants of the mighty hosts that once moved over this broad land or lived in happy homes, protected by the Great Spirit, will remain to mourn over the graves of a people once more powerful and hopeful than yours. But why should I mourn at the untimely fate of my people? Tribe follows tribe, and nation follows nation, like the waves of the sea. It is the order of nature, and regret is useless. Your time of decay may be distant, but it will surely come, for even the White Man whose God walked and talked with him as friend to friend, cannot be exempt from the common destiny. We may be brothers after all. We will see.

We will ponder your proposition and when we decide we will let you know. But should we accept it, I here and now make this condition that we will not be denied the privilege without molestation of visiting at any time the tombs of our ancestors, friends, and children. Ever part of this soil is sacred in the estimation of my people. Every hillside, every valley, every plain and grove, has been hallowed by some sad or happy event in days long vanished. Even the rocks, which seem to be dumb and dead as the swelter in the sun along the silent shore, thrill with memories of stirring events connected with the lives of my people, and the very dust upon which you now stand responds more lovingly to their footsteps than yours, because it is rich with the blood of our ancestors, and our bare feet are conscious of the sympathetic touch. Our departed braves, fond mothers, glad, happy hearted maidens, and even the little children who lived here and rejoiced here for a brief season, will love these sombre solitudes and at eventide they greet shadowy returning spirits. And when the last Red Man shall have perished, and the memory of my tribe shall have become a myth among the White Men, these shores will swarm with the invisible dead of my tribe, and when your children's children think themselves alone in the field, the store, the shop, upon the highway, or in the silence of the pathless woods, they will not be alone. In all the earth there is no place dedicated to solitude. At night when the streets of your cities and villages are silent and you think them deserted, they will throng with the returning hosts that once filled them and still love this beautiful land. The White Man will never be alone.

Let him be just and deal kindly with my people, for the dead are not altogether powerless.






Mensagem 2

Mensagem ao Presidente Bush





Iraquiano, que perdeu pai, mãe, mulher, seis filhos, três irmãos e três cunhadas, pergunta:

Sobre qual destes devo chorar?

(Folha de São Paulo, 2 de abril de 2003)




Por Mia Couto, escritor africano.



Senhor Presidente:

"Sou um escritor de uma nação pobre, um país que já esteve na vossa lista negra. Milhões de moçambicanos desconheciam que mal vos tínhamos feito. Éramos pequenos e pobres: que ameaça poderíamos constituir ? A nossa arma de destruição massiva estava, afinal, virada contra nós: era a fome e a miséria".

"Alguns de nós estranharam o critério que levava a que o nosso nome fosse manchado enquanto outras nações beneficiavam da vossa simpatia. Por exemplo, o nosso vizinho - a África do Sul do "apartheid" - violava de forma flagrante os direitos humanos. Durante décadas fomos vítimas da agressão desse regime. Mas o regime do "apartheid" mereceu da vossa parte uma atitude mais branda: o chamado "envolvimento positivo". O ANC esteve também na lista negra como uma "organização terrorista!". Estranho critério que levaria a que, anos mais tarde, os taliban e o próprio Bin Laden fossem chamadas de "freedom fighters" por estratégias norte-americanos".

"Pois eu, pobre escritor de um pobre país, tive um sonho. Como Martin Luther King certa vez sonhou que a América era uma nação de todos os americanos. Pois sonhei que eu era não um homem mas um país. Sim, um país que não conseguia dormir. Porque vivia sobressaltado por terríveis fatos. E esse temor fez com que proclamasse uma exigência. Uma exigência que tinha a ver consigo, Caro Presidente. E eu exigia que os Estados Unidos da América procedessem à eliminação do seu armamento de destruição massiva. Por razão desses terríveis perigos eu exigia mais: que inspetores das Nações Unidas fossem enviados para o vosso país".

"Que terríveis perigos me alertavam? Que receios o vosso país me inspiravam? Não eram produtos de sonho, infelizmente. Eram fatos que alimentavam a minha desconfiança. A lista é tão grande que escolherei apenas alguns:

- Os Estados Unidos foram a única nação do mundo que lançou bombas atómicas sobre outras nações;

- O seu país foi a única nação a ser condenada por "uso ilegítimo da força" pelo Tribunal Internacional de Justiça;

- Forças americanas treinaram e armaram fundamentalistas islâmicos mais extremistas (incluindo o terrorista Bin Laden) a pretexto de derrubarem os invasores russos no Afeganistão;

- O regime de Saddam Hussein foi apoiado pelos EUA enquanto praticava as piores atrocidades contra os iraquianos (incluindo o gaseamento dos curdos em 1998);

- Como tantos outros dirigentes legítimos, o africano Patrice Lumumba foi assassinado com ajuda da CIA. Depois de preso e torturado e baleado na cabeça o seu corpo foi dissolvido em ácido clorídico;

- Como tantos outros fantoches, Mobutu Seseseko foi por vossos agentes conduzido ao poder e concedeu facilidades especiais à espionagem americana: o quartel-general da CIA no Zaire tornou-se o maior em África. A ditadura brutal deste zairense não mereceu nenhum reparo dos EUA até que ele deixou de ser conveniente, em 1992;

- A invasão de Timor Leste pelos militares indonésios mereceu o apoio dos EUA. Quando as atrocidades foram conhecidas, a resposta da Administração Clinton foi "o assunto é da responsabilidade do governo indonésio e não queremos retirar-lhe essa responsabilidade";

- O vosso país albergou criminosos como Emmanuel Constant um dos líderes mais sanguinários do Taiti cujas forças para-militares massacraram milhares de inocentes. Constant foi julgado à revelia e as novas autoridades solicitaram a sua extradição. O governo americano recusou o pedido.

- Em Agosto de 1998, a força aérea dos EUA bombardeou no Sudão uma fábrica de medicamentos, designada Al-Shifa. Um engano? Não, tratava-se de uma retaliação dos atentados bombistas de Nairobi e Dar-es-Saalam.

- Em Dezembro de 1987, os Estados Unidos foi o único país (junto com Israel) a votar contra uma moção de condenação ao terrorismo internacional. Mesmo assim, a moção foi aprovada pelo voto de cento e cinquenta e três países.

- Em 1953, a CIA ajudou a preparar o golpe de Estado contra o Irão na sequência do qual milhares de comunistas do Tudeh foram massacrados. A lista de golpes preparados pela CIA é bem longa.

- Desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA bombardearam: a China (1945-46), a Coreia e a China (1950-53), a Guatemala (1954), a Indonésia (1958), Cuba (1959-1961), a Guatemala (1960), o Congo (1964), o Peru (1965), o Laos (1961-1973), o Vietname (1961-1973), o Camboja (1969-1970), a Guatemala (1967-1973), Granada (1983), Líbano (1983-1984), a Líbia (1986), Salvador (1980), a Nicarágua (1980), o Irão (1987), o Panamá (1989), o Iraque (1990-2001), o Kuwait (1991), a Somália (1993), a Bósnia (1994-95), o Sudão (1998), o Afeganistão (1998), a Jugoslávia (1999)

- Acções de terrorismo biológico e químico foram postas em prática pelos EUA: o agente laranja e os desfolhantes no Vietname, o vírus da peste contra Cuba que durante anos devastou a produção suína naquele país.

- O Wall Street Journal publicou um relatório que anunciava que 500 000 crianças vietnamitas nasceram deformadas em consequência da guerra química das forças norte-americanas.

- Acordei do pesadelo do sono para o pesadelo da realidade. A guerra que o Senhor Presidente teimou em iniciar poderá libertar-nos de um ditador. Mas ficaremos todos mais pobres. Enfrentaremos maiores dificuldades nas nossas já precárias economias e teremos menos esperança num futuro governado pela razão e pela moral. Teremos menos fé na força reguladora das Nações Unidas e das convenções do direito internacional. Estaremos, enfim, mais sós e mais desamparados".



Senhor Presidente:



"O Iraque não é Saddam. São 22 milhões de mães e filhos, e de homens que trabalham e sonham como fazem os comuns norte-americanos. Preocupamo-nos com os males do regime de Saddam Hussein que são reais. Mas esquece-se os horrores da primeira guerra do Golfo em que perderam a vida mais de 150 000 homens".

"O que está destruindo massivamente os iraquianos não são as armas de Saddam. São as sanções que conduziram a uma situação humanitária tão grave que dois coordenadores para ajuda das Nações Unidas (Dennis Halliday e Hans Von Sponeck) pediram a demissão em protesto contra essas mesmas sanções. Explicando a razão da sua renúncia, Halliday escreveu: "Estamos destruindo toda uma sociedade. É tão simples e terrível como isso. E isso é ilegal e imoral". Esse sistema de sanções já levou à morte meio milhão de crianças iraquianas".

"M as a guerra contra o Iraque não está para começar. Já começou há muito tempo. Nas zonas de restrição aérea a Norte e Sul do Iraque acontecem continuamente bombardeamentos desde há 12 anos. Acredita-se que 500 iraquianos foram mortos desde 1999. O bombardeamento incluiu o uso massivo de urânio empobrecido (300 toneladas, ou seja 30 vezes mais do que o usado no Kosovo)".

"L ivrar-nos-emos de Saddam. Mas continuaremos prisioneiros da lógica da guerra e da arrogância. Não quero que os meus filhos (nem os seus) vivam dominados pelo fantasma do medo. E que pensem que, para viverem tranquilos, precisam de construir uma fortaleza. E que só estarão seguros quando se tiver que gastar fortunas em armas. Como o seu país que despende 270 000 000 000 000 dólares (duzentos e setenta biliões de dólares) por ano para manter o arsenal de guerra. O senhor bem sabe o que essa soma poderia ajudar a mudar o destino miserável de milhões de seres".

"O bispo americano Monsenhor Robert Bowan escreveu- lhe no final do ano passado uma carta intitulada "Porque é que o mundo odeia os EUA ?" O bispo da Igreja Católica da Florida é um ex--combatente na guerra do Vietname. Ele sabe o que é a guerra e escreveu: "O senhor reclama que os EUA são alvo do terrorismo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Que absurdo, Sr. Presidente ! Somos alvos dos terroristas porque, na maior parte do mundo, o nosso governo defendeu a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos dos terroristas porque somos odiados. E somos odiados porque o nosso governo fez coisas odiosas. Em quantos países agentes do nosso governo depuseram líderes popularmente eleitos substituindo-os por ditadores militares, fantoches desejosos de vender o seu próprio povo às corporações norte-americanas multinacionais ? E o bispo conclui: O povo do Canadá desfruta de democracia, de liberdade e de direitos humanos, assim como o povo da Noruega e da Suécia. Alguma vez o senhor ouviu falar de ataques a embaixadas canadianas, norueguesas ou suecas? Nós somos odiados não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos. Somos odiados porque o nosso governo nega essas coisas aos povos dos países do Terceiro Mundo, cujos recursos são cobiçados pelas nossas multinacionais."



Senhor Presidente:



"Sua Excelência parece não necessitar que uma instituição internacional legitime o seu direito de intervenção militar. Ao menos que possamos nós encontrar moral e verdade na sua argumentação. Eu e mais milhões de cidadãos não ficamos convencidos quando o vimos justificar a guerra. Nós preferíamos vê- lo assinar a Convenção de Kyoto para conter o efeito de estufa. Preferíamos tê-lo visto em Durban na Conferência Internacional contra o Racismo".

"Não se preocupe, senhor Presidente. A nós, nações pequenas deste mundo, não nos passa pela cabeça exigir a vossa demissão por causa desse apoio que as vossas sucessivas administrações concederam apoio a não menos sucessivos ditadores. A maior ameaça que pesa sobre a América não são armamentos de outros. É o universo de mentira que se criou em redor dos vossos cidadãos. O perigo não é o regime de Saddam, nem nenhum outro regime. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu governo. O seu inimigo principal não está fora. Está dentro dos EUA. Essa guerra só pode ser vencida pelos próprios americanos".

"E u gostaria de poder festejar o derrube de Saddam Hussein. E festejar com todos os americanos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação e consumo de diminuídos mentais. Porque nós, caro Presidente Bush, nós, os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar".