EUGÊNIO CARNEIRO LEITE
o Tapeceiro dos Fordinhos


Caçula dos nove irmãos, Eugênio Carneiro Leite, nasceu no dia 23 de março de 1922 na vizinha cidade de Ribeirão Bonito. Seus pais, Antonio José Leite e Anna Garcia Carneiro, descendentes de portugueses, lutavam com muita dificuldade para criar os filhos: Marianita (Mariana), Benedito, Nicota, Maria Natividade, Maninho (Sebastião), Antonio, Albertina, Olinda e Eugenio, trabalhando na área rural.

Aos dois anos, perdeu a mãe e continuaram juntos com o pai. Antes dos dez anos morreu também o pai e a partir daí, passou a ser criado pelas irmãs mais velhas vivendo um pouco em cada casa, em muitos lugares e de forma muito diferente a cada vez. Desta época, tem pouca lembrança, o suficiente para lembrar das artes de um menino levado, mas principalmente do carinho e da paciência das irmãs mais velhas, hoje todos falecidos.

Alguns dos irmãos, ao casar "herdavam" esta responsabilidade de levar junto o irmão mais novo. Foram tempos difíceis. Morou em algumas fazendas como: Santa Rita, Furquia e Santa Lourdes, com parentes da família. Na adolescência foi para Torrinha, morar com o irmão Antonio Leite, recém casado. Este irmão, conhecido seleiro na cidade lhe ensinou o "ofício" dos 12 aos 15 anos, o que lhe valeu o sustento durante muitos anos. Até hoje, mesmo aposentado, depois de quase 7O anos de serviço, ele continua criando com muito capricho suas obras. Cada trabalho, cada sela que ele fabrica de forma totalmente artesanal, o deixa extremamente feliz e satisfeito.

Como "oficial de selaria", trabalhou com o primo Emiliano no Bairro do Campo Alegre. Dali, veio para a cidade, morar na chácara da irmã Marianita, onde trabalhou com gado, cortando lenha. Insatisfeito, pensava sempre: "isso aqui não vai me dar futuro". Veio para cidade tentar uma vida melhor. Ficou pouco tempo e acabou indo para Piracicaba, onde morava uma outra irmã, Natividade, já casada. Lá conseguiu emprego na antiga Selaria União e começou humildemente trabalhando como "meio-oficial", mesmo sabendo fazer o serviço igual dos outros nove oficiais. Nesta época lembra ele - "a guerra atrapalhou e o serviço de seleiro foi a zero".

Obrigado a sair da Selaria, arrumou emprego durante a safra no Engenho Central daquela cidade, trabalhando com as moendas. Tentou continuar neste emprego depois da safra, mas foi em vão. Não havia serviço. Outro emprego, outra selaria, onde ficou pouco tempo. Voltou para Brotas, passou a viver sozinho morando em quartos de aluguel, como do Sr. João Manoel, da Dona Nora, na antiga Pensão Santa Cruz.

Nesta época, o patriarca da família Gueller, sr. Luis, era proprietário do Curtume e morava com a família na chácara próxima a estação de trens. O sr. Eugenio passou a trabalhar com o sr. Luis Gueller na cidade. Algum tempo depois foi convidado pela família e passou a morar com ele, a esposa Dona Matilde e seus dez filhos, completando um time de futebol. Desta época, o sr. Eugenio recorda-se com muito carinho: do zelo da Dona Matilde, dos sustos que pregava nos irmãos. Vinham para a cidade e juntos freqüentavam muitos bailes nas fazendas. Em algumas delas só era possível o acesso na carroceria de caminhões. E lá iam todos de terno. O velho terno branco de linho, com certeza chegava marrom tamanha a poeira na estrada.

O amigo e companheiro Otávio Gueller passou a namorar a jovem Lydia C. Rossi e depois de casado foram morar na chácara. Dona Rosa Rossi visitava a irmã e acabou conhecendo o "agregado" daquela numerosa família de homens. E assim começou um namoro que resultou em 53 anos de casamento.

Com o sr. Luis ele tinha emprego, casa e comida. Mas o sonho de trabalhar por conta persistia. Com o dinheiro de suas parcas economias foi comprando, aos poucos algumas ferramentas do Sr. Esperidião Bussab. E assim, foi juntando e quando viu já possuía as principais: soveira, compasso de friso, meia lua. Logo viu que podia realizar o sonho de trabalhar por conta própria. Com o tempo alugou um espaço que pertencia ao Sr. Primo Luchini na antiga Avenida Um, hoje Mário Pinotti, ali montou a sua Selaria e Colchoaria São Francisco, no local onde é hoje a nova sede da Caixa Econômica Federal. E depois de um tempo de namoro aos 24 anos, o sr. Eugênio se casou e levou a esposa para morar na sua casa.

Quando finalmente constituiu uma família, pode finalmente retribuir a ajuda dos irmãos. Depois de casado, pode acolher em sua casa, o irmão Maninho e mais tarde o irmão Dito acabou morando com o Sr. Eugênio durante mais de 20 anos.

O sr. Eugênio,trabalhando em sua oficina.

Com o casamento passou a ter a seu lado uma mulher igualmente forte, batalhadora. Com Dona Rosa tiveram e criaram os quatro filhos: Soely, Sônia, Flavio e Eduardo. Em 1959, às vésperas de nascer seu terceiro filho, Flávio, mudaram finalmente para uma casa própria, na Av. Rodolfo Guimarães.

O sr. Eugênio havia conhecido um outro artesão: Sr. Reniero Bressan, um mestre na arte de restaurar carros do tipo FORD 29, os famosos Ford Bigode. E assim fizeram uma bela dupla: enquanto um restaurava o motor e fazia toda a parte de funilaria dos fordinhos, o outro fazia a tapeçaria e os entregavam como novos. Ficaram famosos na região e até mais distante, chegando a fazer o serviço para clientes até de outros estados.

Certa vez, ainda na casa da Av.Mário Pinotti, apareceu um jovem sozinho, aos 14 anos de idade procedente da Bahia, procurando emprego. Nesta época, não era comum como é hoje um nordestino aportar em nossa cidade. O sr. Eugênio o acolheu e passou a ensinar-lhe um pouco de tapeçaria, dando-lhe o emprego de ajudante. O nome dele era José Aprígio Teixeira, o qual tornou-se muito conhecido em Brotas como Zé Baiano e ficou quase 20 anos trabalhando com ele e passou a ser como um filho da família.

Dois fordinhos, com suas belas capotas, criadas pelo sr. Eugênio.

O sr. Eugênio fez de tudo um pouco. Trabalhou como seleiro, tapeceiro e proprietário rural. Fabricava colchões que eram vendidos às centenas para a Usina Varjão durante a safra da cana de açúcar. Além de reformar fordinhos e o estofamento e o interior de veículos como os primeiros fuscas, revestidos internamente de napa, fabricava também sofás e cadeiras. Depois de aposentado, quando cerrou as portas da sua Selaria e Colchoaria São Francisco, ficou pouco tempo parado. Não conseguiu. Sempre muito ativo, começou a pegar alguns serviços novamente como seleiro e assim não parou mais. Este ofício, realizado de forma totalmente artesanal, está se tornando cada dia mais raro.

Aos 81 anos de idade continua trabalhando sozinho, fabricando algumas selas e consertando outras para produtores rurais da região, que o conhecem muito. Parar nem pensar! Só pára mesmo, nos finais de semana para ver o time de sua paixão - o São Paulo. Alegria maior é quando reúne toda a família para um churrasco. Ali fica horas, descontraído contando histórias de uma vida simples, mas muito valiosa.



O sr. Eugênio Carneiro Leite,
aos 81 anos e trabalhando firme!

E esse seu humor, sua fé na vida, seu respeito e gratidão pelo ser humano e a retidão de seu caráter, que Graças a Deus tem norteado nossos caminhos, seus filhos e netos.

Obrigada meu pai. Sônia Leite




Artigo extraído da "Tribuna Comunitária", jornal de Brotas, edição de 28 de junho de 2003.